| (Créditos: Good Film Hunting) |
Antes de mais nada, me recuso a colocar o subtítulo "Quebrando Tudo". Ele não expressa nada daquilo que o filme quer passar num nível mais profundo - que é onde acredito habitar o propósito de toda manifestação artística. Convenhamos que apesar de gostarmos de ver a pancadaria dos filmes de John Woo e os tiroteios coreografos dos filmes de Quentin Tarantino - ou será que é o contrário? -, também estamos à procura do desenvolvimento da personagem e de seus motivos e objetivos, questionamentos e traumas.
Considerado uma demonstração de como a violência tomou conta de Hollywood, a ponto de uma atriz de 13 anos falar coisas como cunt e cock, Kick-Ass conta a história de um adolescente comum, fã de quadrinhos, Dave Lizewski (Aaron Johnson, Gatinhos, Amassos e Fios-Dentais), que decide ajudar os outros da forma mais difícil - mas também inspiradora: usando uma roupa de super-herói. Mas há um detalhe: o universo de Dave não é Marvel, Vertigo, Wildstorm, DC ou Oni Press (?!); ele é o mundo real. Aqui, não há super-poderes, mas ele mesmo lembra: Bruce Wayne também não os tinha. Contudo, é aqui que vemos o que ele, Batman, Superman e Tara Chace tem em comum: a obstinação. É isso que o mantém na ativa mesmo após apanhar o suficiente para fazer qualquer um voltar atrás.
O mundo real, embora muita gente não queira admitir, é povoado de Lex Luthors, Jonathan Cranes e Thomas Elliots. Neste caso, o vilão da vez é Frank D'Amico (Mark Strong, Rede de Mentiras), um poderoso gângster que anda enfrentando problemas com um vigilante desconhecido, chegando mesmo a pensar que é o próprio Kick-Ass que está por trás disso - resultando numa das cenas mais trágicas e engraçadas da história do cinema. Ele tem um filho, Chris (Christopher Mintz-Plasse, Ano Um), um fã de histórias em quadrinhos que quer seguir os passos do pai.
À trama se acrescentam mais duas personagens, Big Daddy (Nicolas Cage, Arizona Nunca Mais) e Hit-Girl (Chloë Moretz, 500 Dias com Ela), pai e filha que atuam como vigilantes contra D'Amico. Operando há mais tempo que Kick-Ass, mas agindo na surdina, eles se unem a Dave no combate ao crime, só que do jeito deles - com muito tiro, porrada e mutilação.
O desenvolvimento do protagonista é uma coisa a ser admirada no filme, e acredito que poucos diretores conseguiram expressar isso tão bem quanto Matthew Vaughn: em Nada é o Que Parece, XXXX (Daniel Craig, Copenhague) passava de mero distribuidor a gângster aposentado e bem-sucedido; e em O Mistério da Estrela, Tristan (Charlie Cox, O Mercador de Veneza) passava de mero “projeto” de paramour pra se tornar imortal. Todos tiveram seus problemas e apanharam muito para isso, mas que herói grego também não enfrentou problemas? (Aqui você pode discordar na referência à XXXX, mas aí podemos dizer que os comportamentos de Agamênon, Menelau, Hércules e Odisseu também não foram lá grandes exemplos.)
A relação pai e filha, apesar de estranha por conta das cenas de violência e diálogos com palavrão, também surpreende. Tirando o treinamento com colete à prova de balas e a demonstração com navalhas, o amor entre eles parece genuíno e faz você desejar que pelo menos isso ainda pudesse existir num mundo perverso como o nosso. Mesmo a relação entre Frank e Chris chama a atenção, com o primeiro tentando esconder do filho que estava usando cocaína a fim de dar um bom exemplo. A moral pode até estar desvirtuada aqui, mas não é assim em um mundo em que elegemos deputados que abusam de crianças e fornecem armas aos traficantes?
O visual do filme lembra o de outra adaptação cinematográfica muito bem-feita: Watchmen, de Zach Snyder (300). Apesar de Zach não ter conseguido o que queria - que a bilheteria de Watchmen fosse grande o suficiente para que melhores adaptações de HQs pudessem ser feitas -, Vaughn pôs boa parte da grana no filme a fim de que ele pudesse ficar de um jeito que ressoasse o espírito da fonte original. Mas há um detalhe aqui: neste filme, Watchmen se encontra com Cães de Aluguel, de Tarantino. Portanto, pense duas vezes em levar seu(ua) filho(a) ou irmãozinho(a) junto com você.
A trilha sonora vai de Elvis Presley a The Prodigy, com An American Trilogy tocando em uma cena que faz lembrar Leonard Cohen cantando Hallelujah durante a cena de sexo em Watchmen ou Over the Rainbow tocando durante o tiroteio em A Outra Face, de John Woo. As cenas envolvendo a Hit-Girl em que toca o tema de Por um Punhado de Dólares, de Sergio Leone, e Bad Reputation, de Joan Jett, fazem você se sentir saudosista, curioso e atônito ao mesmo tempo.
Apesar de algumas pessoas apontarem para o fato de que o final é um tanto implausível, advirto-os que não é mesmo o caso. Basta ver como a tecnologia se aprimorou a ponto de o filme retratar algo realista - só vendo o filme pra você entender o que eu quero dizer. (Este é um blog. Quando tiver meu próprio site eu coloco um omissor de spoilers, ok?)
Com relação à adaptação de situações apresentadas nos quadrinhos, comparando os dois você vê que o filme flui mais e suaviza o golpe que te dá no estômago ao fazê-lo encarar os fatos: a vida é injusta, as pessoas morrem por qualquer estupidez e é difícil saber em quem confiar - aqui, cabe uma referência ao Red Mist, a identidade de super-herói usada por Chris D'Amico para se infiltrar no círculo de Dave e descobrir quem são os responsáveis por atrapalhar os negócios de seu pai.
Até podemos aqui discutir se é moralmente aceitável uma atriz de 13 anos fazer um papel onde fala palavrões - que não são tantos assim - e mutila vários capangas. Será então aceitável mostrar uma menina de 13 anos fazendo papel de prostituta? Você pode até dizer que não há teor sexual aí porque não há cena alguma dela realizando tal ato, mas mesmo a atriz admitiu que havia uma carga psicológica séria por conta do papel. Ou mesmo usar uma dublê de corpo em A Lagoa Azul, pois Brooke Shields era menor de idade? Porque, afinal, isso mexe com o imaginário das pessoas. Ainda temos as cenas de estupro implícitas em Hounddog com Dakota Fanning e Duas Mulheres com Eleonora Brown. Não pensem que estou tentando justificar a participação de Chloë Moretz, mas porque pega-se tanto no pé deste filme, sendo que os que mencionei mal foram questionados?
Alguns disseram que o filme falhou em demonstrar que um adolescente não aprende nada vendo isso, sem questionar o impacto que isso pode ter pra quem comete ou vivencia atos como os mostrados no filme. Minha resposta é: assista o filme novamente e vão ver porque as personagens acabaram daquele jeito, se envolvendo daquela maneira. Cada um de nós possui uma narrativa própria, e reagimos mais pelo que suportamos em nossa vivência do que por aquilo que nos é apresentado. A História nos ensina isso.
Precisamos pensar se queremos viver em um mundo onde são necessários homens de máscara para nos proteger do mal ou se queremos enfrentar esse mesmo mal nós mesmos, através dos meios que temos à disposição. Mesmo porque, como o filme bem mostrou na cena em que Kick-Ass apanha bastante mas impede que um homem seja linchado à morte, é a inércia do povo que faz surgir a necessidade de homens dispostos a morrer por uma causa.
