sábado, 19 de junho de 2010

I don't give a damn 'bout my reputation/You're living in the past it's a new generation - Kick-Ass (2010)

 

















(Créditos: Good Film
Hunting
)

Antes de mais nada, me recuso a colocar o subtítulo "Quebrando Tudo". Ele não expressa nada daquilo que o filme quer passar num nível mais profundo - que é onde acredito habitar o propósito de toda manifestação artística. Convenhamos que apesar de gostarmos de ver a pancadaria dos filmes de John Woo e os tiroteios coreografos dos filmes de Quentin Tarantino - ou será que é o contrário? -, também estamos à procura do desenvolvimento da personagem e de seus motivos e objetivos, questionamentos e traumas.

Considerado uma demonstração de como a violência tomou conta de Hollywood, a ponto de uma atriz de 13 anos falar coisas como cunt e cock, Kick-Ass conta a história de um adolescente comum, fã de quadrinhos, Dave Lizewski (Aaron Johnson, Gatinhos, Amassos e Fios-Dentais), que decide ajudar os outros da forma mais difícil - mas também inspiradora: usando uma roupa de super-herói. Mas há um detalhe: o universo de Dave não é Marvel, Vertigo, Wildstorm, DC ou Oni Press (?!); ele é o mundo real. Aqui, não há super-poderes, mas ele mesmo lembra: Bruce Wayne também não os tinha. Contudo, é aqui que vemos o que ele, Batman, Superman e Tara Chace tem em comum: a obstinação. É isso que o mantém na ativa mesmo após apanhar o suficiente para fazer qualquer um voltar atrás.

O mundo real, embora muita gente não queira admitir, é povoado de Lex Luthors, Jonathan Cranes e Thomas Elliots. Neste caso, o vilão da vez é Frank D'Amico (Mark Strong, Rede de Mentiras), um poderoso gângster que anda enfrentando problemas com um vigilante desconhecido, chegando mesmo a pensar que é o próprio Kick-Ass que está por trás disso - resultando numa das cenas mais trágicas e engraçadas da história do cinema. Ele tem um filho, Chris (Christopher Mintz-Plasse, Ano Um), um fã de histórias em quadrinhos que quer seguir os passos do pai.

À trama se acrescentam mais duas personagens, Big Daddy (Nicolas Cage, Arizona Nunca Mais) e Hit-Girl (Chloë Moretz, 500 Dias com Ela), pai e filha que atuam como vigilantes contra D'Amico. Operando há mais tempo que Kick-Ass, mas agindo na surdina, eles se unem a Dave no combate ao crime, só que do jeito deles - com muito tiro, porrada e mutilação.

O desenvolvimento do protagonista é uma coisa a ser admirada no filme, e acredito que poucos diretores conseguiram expressar isso tão bem quanto Matthew Vaughn: em Nada é o Que Parece, XXXX (Daniel Craig, Copenhague) passava de mero distribuidor a gângster aposentado e bem-sucedido; e em O Mistério da Estrela, Tristan (Charlie Cox, O Mercador de Veneza) passava de mero “projeto” de paramour pra se tornar imortal. Todos tiveram seus problemas e apanharam muito para isso, mas que herói grego também não enfrentou problemas? (Aqui você pode discordar na referência à XXXX, mas aí podemos dizer que os comportamentos de Agamênon, Menelau, Hércules e Odisseu também não foram lá grandes exemplos.)

A relação pai e filha, apesar de estranha por conta das cenas de violência e diálogos com palavrão, também surpreende. Tirando o treinamento com colete à prova de balas e a demonstração com navalhas, o amor entre eles parece genuíno e faz você desejar que pelo menos isso ainda pudesse existir num mundo perverso como o nosso. Mesmo a relação entre Frank e Chris chama a atenção, com o primeiro tentando esconder do filho que estava usando cocaína a fim de dar um bom exemplo. A moral pode até estar desvirtuada aqui, mas não é assim em um mundo em que elegemos deputados que abusam de crianças e fornecem armas aos traficantes?

O visual do filme lembra o de outra adaptação cinematográfica muito bem-feita: Watchmen, de Zach Snyder (300). Apesar de Zach não ter conseguido o que queria - que a bilheteria de Watchmen fosse grande o suficiente para que melhores adaptações de HQs pudessem ser feitas -, Vaughn pôs boa parte da grana no filme a fim de que ele pudesse ficar de um jeito que  ressoasse o espírito da fonte original. Mas há um detalhe aqui: neste filme, Watchmen se encontra com Cães de Aluguel, de Tarantino. Portanto, pense duas vezes em levar seu(ua) filho(a) ou irmãozinho(a) junto com você.

A trilha sonora vai de Elvis Presley a The Prodigy, com An American Trilogy tocando em uma cena que faz lembrar Leonard Cohen cantando Hallelujah durante a cena de sexo em Watchmen ou Over the Rainbow tocando durante o tiroteio em A Outra Face, de John Woo. As cenas envolvendo a Hit-Girl em que toca o tema de Por um Punhado de Dólares, de Sergio Leone, e Bad Reputation, de Joan Jett, fazem você se sentir saudosista, curioso e atônito ao mesmo tempo.

Apesar de algumas pessoas apontarem para o fato de que o final é um tanto implausível, advirto-os que não é mesmo o caso. Basta ver como a tecnologia se aprimorou a ponto de o filme retratar algo realista - só vendo o filme pra você entender o que eu quero dizer. (Este é um blog. Quando tiver meu próprio site eu coloco um omissor de spoilers, ok?)

Com relação à adaptação de situações apresentadas nos quadrinhos, comparando os dois você vê que o filme flui mais e suaviza o golpe que te dá no estômago ao fazê-lo encarar os fatos: a vida é injusta, as pessoas morrem por qualquer estupidez e é difícil saber em quem confiar - aqui, cabe uma referência ao Red Mist, a identidade de super-herói usada por Chris D'Amico para se infiltrar no círculo de Dave e descobrir quem são os responsáveis por atrapalhar os negócios de seu pai.

Até podemos aqui discutir se é moralmente aceitável uma atriz de 13 anos fazer um papel onde fala palavrões - que não são tantos assim - e mutila vários capangas. Será então aceitável mostrar uma menina de 13 anos fazendo papel de prostituta? Você pode até dizer que não há teor sexual aí porque não há cena alguma dela realizando tal ato, mas mesmo a atriz admitiu que havia uma carga psicológica séria por conta do papel. Ou mesmo usar uma dublê de corpo em A Lagoa Azul, pois Brooke Shields era menor de idade? Porque, afinal, isso mexe com o imaginário das pessoas. Ainda temos as cenas de estupro implícitas em Hounddog com Dakota Fanning e Duas Mulheres com Eleonora Brown. Não pensem que estou tentando justificar a participação de Chloë Moretz, mas porque pega-se tanto no pé deste filme, sendo que os que mencionei mal foram questionados?

Alguns disseram que o filme falhou em demonstrar que um adolescente não aprende nada vendo isso, sem questionar o impacto que isso pode ter pra quem comete ou vivencia atos como os mostrados no filme. Minha resposta é: assista o filme novamente e vão ver porque as personagens acabaram daquele jeito, se envolvendo daquela maneira. Cada um de nós possui uma narrativa própria, e reagimos mais pelo que suportamos em nossa vivência do que por aquilo que nos é apresentado. A História nos ensina isso.

Precisamos pensar se queremos viver em um mundo onde são necessários homens de máscara para nos proteger do mal ou se queremos enfrentar esse mesmo mal nós mesmos, através dos meios que temos à disposição. Mesmo porque, como o filme bem mostrou na cena em que Kick-Ass apanha bastante mas impede que um homem seja linchado à morte, é a inércia do povo que faz surgir a necessidade de homens dispostos a morrer por uma causa.

domingo, 6 de junho de 2010

Polanski Doesn't Live Here Anymore - O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, 2010)

 














(Créditos: Filmoteca da Day)

Esta crítica sai com duas (ou três) semanas de atraso, mas vamos lá. Tomara que haja algum incauto que leia e evite passar pelo que eu passei...

Antes de mais nada, devo confessar ser um fã do trabalho de Polanski, embora confesse que ele pecou em certos filmes - o que foi aquele Piratas (Pirates, 1986), afinal?! Apesar da encrenca judicial em que ele se encontra - convenhamos, merecida -, ainda o acho um gênio; só que aqui, ele pecou.

O filme conta a história de um "ghost writer" (ou "fantasma") (Ewan McGregor, Alex Rider Contra o Tempo) contratado por uma grande editora para escrever a "autobiografia" do ex-premier britânico, Adam Lang (Pierce Brosnan, Uma Babá Quase Perfeita). Contudo, assim como em qualquer outro filme policial, há um elemento sinistro por trás da história: o primeiro "ghost writer", Mike McAra, membro do partido de Lang e conselheiro pessoal, foi encontrado semanas antes morto no que parecia ser um afogamento acidental, agravado pela alta quantidade de álcool encontrado no sangue.

O "fantasma" viaja para os EUA a fim de entrevistar Lang e ter acesso ao conteúdo escrito por McAra, que consiste num texto cheio de referências precisas e factuais, mas impessoais. Visitando - e mesmo morando na casa de Lang -, o "fantasma" começa a fazer parte da vida do ex-primeiro ministro, convivendo com sua esposa, Ruth (Olivia Williams, O Sexto Sentido), e sua secretária [quase amante], Amelia Bly (Kim Cattrall, Manequim). No entanto, o momento não é dos melhores: Lang está sendo acusado de ter auxiliado a CIA numa missão de sequestro e tortura de quatro cidadãos americanos no Paquistão com prováveis ligações terroristas durante seu governo - sim, o filme se passa num ambiente pós-11 de Setembro e Guerra ao Terror. E é aí que começam as falhas...

Quanto mais o "fantasma" mergulha na vida de Lang, menos realista a coisa fica. De autor-pesquisador, ele vira mero investigador, sem que a platéia entenda o porquê disso - ok, você pode dizer que ele está com medo de morrer como McAra, mas aí você presume, só que sem dados materiais (e eu que pensava que você virava cineasta justamente para isso: apresentar fatos, dados de uma diferente - do contrário, qual a razão da arte?). O espectador não sente aquele mesmo ímpeto de buscar a verdade que um dia estimulou Jake Gittes a lutar contra uma cidade inteira. As situações são entregues, sem fluição - talvez pelo fato do romance ser em primeira-pessoa, tenha sido um tanto difícil transformar o texto num thriller em terceira pessoa observadora.

A transformação da personagem de Olivia Williams num protótipo de femme fatale também fica fora de esquadro. Williams é uma boa atriz, só que como a mulher desconsolada ela atua melhor que como a sedutora - o pior é que o final do filme ainda acentua essa característica. Nunca entendemos as motivações das personagens com relação a todo o cenário - a morte de McAra, a participação de Lang nos sequestros - a menos que sejam expressas verbalmente. Esse é um ponto falho no roteiro que poderia ter sido resolvido com mais esforço, visto que Polanski e Harris (o autor do livro) trabalharam juntos em sua concepção.

A perseguição de carro fica muito clichê, e mesmo a cena em que o "fantasma" refaz os passos do antecessor soa irreal - no livro é curiosidade, no filme é... Sei lá, precaução?! Medo?! Para um filme que parecia ir além do mero gênero policial, ele cabe de fato nesse mesmo gênero.

Os destaques do filme vão justamente pra quem pouco apareceu: James Belushi como John Maddox, o presidente da editora Rhinehart Inc. - detalhe, de tão pouco que esse nome é pronunciado na trama, no final custa a entender porque ele aparece novamente -, e Timothy Hutton como Sydney Kroll, advogado de Lang. A cena da reunião deles na sede da editora em Londres é uma ótima amostra da situação do mercado editorial mundial no momento. A sutileza com que o assunto é tratado faz qualquer um sorrir ao que parece ser uma crítica velada de Robert Harris às editoras em geral. Kim Cattrall também demonstra grande controle emocional no papel de secretária de Lang, fazendo-nos mesmo esquecer do papel dela de Samantha naquele seriado famoso. Pierce Brosnan convence como um ex-primeiro-ministro que fica entre o cinismo da fama e a desilusão que o cargo lhe proporcionou, falhando apenas no diálogo com o "fantasma" próximo do final, fazendo o roteiro soar mais falso ainda.

A crítica parece ter amado o filme, mas acredito que por motivos errados. Não é porque Polanski já fez tantos filmes do gênero, virando até mestre, que toda produção subsequente também deve ser admirada. Olhem Scorsese, Scott, de Palma e Spielberg - o estilo pode até estar lá, só que ele não está funcionando como antigamente.

Só pra quebrar o gelo aqui, acho que o prenderam não pelo crime de quarenta anos atrás, mas porque ele insistiu em fazer esse filme. [:D]

Apresentação

Apesar do subtítulo deste blog parecer pretensioso, meu objetivo aqui é exatamente esse: facilitar o acesso ao mundo do cinema de forma a que mais pessoas possam descobrir os encantos que se escondem por trás das imagens em movimento, sejam elas acompanhadas de fala ou não. A intenção aqui é tratar não só das estréias, como também do que já está disponível em DVD. Sem querer ser acadêmico ou prolixo, procurarei destrinchar aquilo que mais chama a atenção para mim, dando uma dica de por onde o espectador pode começar. Também darei dicas de como se iniciar em outros circuitos cinematográficos, como o italiano, o coreano, o japonês, o chinês e o hongkonguiano (sim, eles são diferentes), entre outros.

Como não sou um grande especialista no assunto – embora seja amante da Sétima Arte –, peço a todos calma para comigo se as opiniões aqui expressas de algum modo ferirem os sentimentos de fãs e/ou cinéfilos. Aos leitores deste blog, dou minhas boas-vindas.

Um abraço,

Bruce Torres.