domingo, 6 de junho de 2010

Polanski Doesn't Live Here Anymore - O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, 2010)

 














(Créditos: Filmoteca da Day)

Esta crítica sai com duas (ou três) semanas de atraso, mas vamos lá. Tomara que haja algum incauto que leia e evite passar pelo que eu passei...

Antes de mais nada, devo confessar ser um fã do trabalho de Polanski, embora confesse que ele pecou em certos filmes - o que foi aquele Piratas (Pirates, 1986), afinal?! Apesar da encrenca judicial em que ele se encontra - convenhamos, merecida -, ainda o acho um gênio; só que aqui, ele pecou.

O filme conta a história de um "ghost writer" (ou "fantasma") (Ewan McGregor, Alex Rider Contra o Tempo) contratado por uma grande editora para escrever a "autobiografia" do ex-premier britânico, Adam Lang (Pierce Brosnan, Uma Babá Quase Perfeita). Contudo, assim como em qualquer outro filme policial, há um elemento sinistro por trás da história: o primeiro "ghost writer", Mike McAra, membro do partido de Lang e conselheiro pessoal, foi encontrado semanas antes morto no que parecia ser um afogamento acidental, agravado pela alta quantidade de álcool encontrado no sangue.

O "fantasma" viaja para os EUA a fim de entrevistar Lang e ter acesso ao conteúdo escrito por McAra, que consiste num texto cheio de referências precisas e factuais, mas impessoais. Visitando - e mesmo morando na casa de Lang -, o "fantasma" começa a fazer parte da vida do ex-primeiro ministro, convivendo com sua esposa, Ruth (Olivia Williams, O Sexto Sentido), e sua secretária [quase amante], Amelia Bly (Kim Cattrall, Manequim). No entanto, o momento não é dos melhores: Lang está sendo acusado de ter auxiliado a CIA numa missão de sequestro e tortura de quatro cidadãos americanos no Paquistão com prováveis ligações terroristas durante seu governo - sim, o filme se passa num ambiente pós-11 de Setembro e Guerra ao Terror. E é aí que começam as falhas...

Quanto mais o "fantasma" mergulha na vida de Lang, menos realista a coisa fica. De autor-pesquisador, ele vira mero investigador, sem que a platéia entenda o porquê disso - ok, você pode dizer que ele está com medo de morrer como McAra, mas aí você presume, só que sem dados materiais (e eu que pensava que você virava cineasta justamente para isso: apresentar fatos, dados de uma diferente - do contrário, qual a razão da arte?). O espectador não sente aquele mesmo ímpeto de buscar a verdade que um dia estimulou Jake Gittes a lutar contra uma cidade inteira. As situações são entregues, sem fluição - talvez pelo fato do romance ser em primeira-pessoa, tenha sido um tanto difícil transformar o texto num thriller em terceira pessoa observadora.

A transformação da personagem de Olivia Williams num protótipo de femme fatale também fica fora de esquadro. Williams é uma boa atriz, só que como a mulher desconsolada ela atua melhor que como a sedutora - o pior é que o final do filme ainda acentua essa característica. Nunca entendemos as motivações das personagens com relação a todo o cenário - a morte de McAra, a participação de Lang nos sequestros - a menos que sejam expressas verbalmente. Esse é um ponto falho no roteiro que poderia ter sido resolvido com mais esforço, visto que Polanski e Harris (o autor do livro) trabalharam juntos em sua concepção.

A perseguição de carro fica muito clichê, e mesmo a cena em que o "fantasma" refaz os passos do antecessor soa irreal - no livro é curiosidade, no filme é... Sei lá, precaução?! Medo?! Para um filme que parecia ir além do mero gênero policial, ele cabe de fato nesse mesmo gênero.

Os destaques do filme vão justamente pra quem pouco apareceu: James Belushi como John Maddox, o presidente da editora Rhinehart Inc. - detalhe, de tão pouco que esse nome é pronunciado na trama, no final custa a entender porque ele aparece novamente -, e Timothy Hutton como Sydney Kroll, advogado de Lang. A cena da reunião deles na sede da editora em Londres é uma ótima amostra da situação do mercado editorial mundial no momento. A sutileza com que o assunto é tratado faz qualquer um sorrir ao que parece ser uma crítica velada de Robert Harris às editoras em geral. Kim Cattrall também demonstra grande controle emocional no papel de secretária de Lang, fazendo-nos mesmo esquecer do papel dela de Samantha naquele seriado famoso. Pierce Brosnan convence como um ex-primeiro-ministro que fica entre o cinismo da fama e a desilusão que o cargo lhe proporcionou, falhando apenas no diálogo com o "fantasma" próximo do final, fazendo o roteiro soar mais falso ainda.

A crítica parece ter amado o filme, mas acredito que por motivos errados. Não é porque Polanski já fez tantos filmes do gênero, virando até mestre, que toda produção subsequente também deve ser admirada. Olhem Scorsese, Scott, de Palma e Spielberg - o estilo pode até estar lá, só que ele não está funcionando como antigamente.

Só pra quebrar o gelo aqui, acho que o prenderam não pelo crime de quarenta anos atrás, mas porque ele insistiu em fazer esse filme. [:D]

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